As RaÃzes.

Nasci no dia 13 de janeiro de 2002, o famoso "13 das ideias". Dizem que é dia de doido, e admito que isso me define dos pés à cabeça. Sou o choque caótico de dois mundos: filho de um imigrante e de uma baiana que se encontraram no meio do carnaval em 2000. Cresci numa pequena periferia quase no fim da cidade de São Paulo, bem naquele limite invisÃvel onde a metrópole sufocante acaba e o interior começa a respirar.
Minha infância foi meio conturbada, marcada por extremos. Nos meus primeiros anos, as brigas e a separação dos meus pais deixaram uma lacuna paterna bem forte. Fui criado e protegido por uma trindade de mulheres. Minha mãe, com aquela essência jovem, delicada e vaidosa; a personalidade dela era um reflexo direto de como o mundo a tratava. Minha tia, a famosa "Tia Nani" (sim, pode fazer a referência à quela do SBT, é exatamente essa a vibe ahahah), que sempre teve um olhar visceral para tudo ao redor, absorvendo o mundo, mas sabendo exatamente o que dizer. E, no centro disso tudo, a minha avó. Ela foi a minha verdadeira âncora, a pessoa que me criou acima de todos e a única que conseguia colocar alguma rédea numa mente que já nasceu indomável. Eram as três pelas três, sempre. "As Meninas Superpoderosas" da minha vida, e sou absurdamente grato por ter sido forjado por essa famÃlia.
Mas a vida testa a gente cedo. Aos seis anos, tomei minha primeira queda livre. Estava na casa da minha avó, correndo atrás do meu gato, o famoso Minhau (curiosidade: cheguei a ter três gatos simultaneamente chamados Minhau numa certa época), quando ele desceu as escadas e eu fui no impulso atrás. CaÃ, rolando do terceiro andar até a metade do primeiro. Cheguei no hospital desacordado, sem conseguir respirar. A partir daquele momento, minhas memórias viraram um loop de estar em hospitais, passando por neurologistas, psicólogos e psiquiatras.
Nesse meio tempo, comecei a passar constantemente no hospital sem entender o porquê. Sendo alavancado inicialmente pela queda, um problema descobriu outro (anos depois entendi que na época fui parar num tipo de pesquisa médica, cheguei a receber o laudo de AHSD). O problema é que isso não era algo necessariamente bom. Não tinha muito conhecimento sobre o assunto e ninguém sabia lidar comigo direito, me sentia deslocado de todos ao meu redor.
Foi no meio dessa tempestade, doente e frágil, que eu decidi que queria ver o meu pai. Meu tio foi atrás dele e o encontrou. Lembro bem do reencontro depois de um bom tempo. Ele chegou com um PlayStation 2. Naquela noite, o mundo lá fora desligou. Ficamos a madrugada inteira jogando Guitar Hero. Ele amava, e eu também. Por mais breves que tenham sido aqueles momentos compartilhados, eles carregam um peso eterno pra mim.
A cabeça rodava a mil, devorando a si mesma. Comecei a desenvolver um quadro depressivo bem pesado. A angústia era lúcida precocemente demais pra uma criança, do tipo: "Por que eu tô aqui? Qual o sentido disso tudo? Eu não pedi pra pensar, não pedi pra comer, respirar. Se todo mundo vai morrer, pra que me esforçar tanto?"
A resposta não estava no mundo fÃsico. Em 2010, esbarrei no Habbo (RIP srto.jamesbaby e DiscoJaffRock), e um pouco depois, vendo uns vÃdeos do Venom, descobri o Minecraft. A internet virou meu refúgio absoluto. Lá eu não tinha aparência, não tinha um laudo ou o peso da minha existência. Lá, eu não era nada, não era nada pra ninguém, ninguém esperava nada de mim, então, de alguma forma, eu podia ser qualquer coisa.
As possibilidades eram infinitas. Dos servidores piratas de Habbo via Hamachi até pagar host, eu fui construindo meu próprio tabuleiro. Em 2014, entediado do cotidiano de ser só um player seguindo regras que quase nunca eram justas, decidi fazer as minhas. Juntei com um amigo que conhecia do falecido PVPLOVERS, fizemos o mcbr-pvp e logo aquilo virou o MomentCraft. O que era pra ser uma brincadeira cresceu numa proporção que eu nem imaginava.
Enquanto no digital eu governava servidores, a vida real era terrÃvel. Eu odiava tanto o ambiente escolar que cabulava aula escondido debaixo da cama. Nunca me senti incluso. O ápice do absurdo rolou quando derrubei acidentalmente o suquinho de um indivÃduo da sala. Ofereci pagar outro, mas ele já não ia com a minha cara porque alguns colegas tentavam ser simpáticos comigo. O indivÃduo deixou um bilhete dizendo que ia me furar com um estilete de apontador e me encurralou na escada. Reagi por instinto, derrubei e chutei o cara. O resultado? A professora e a diretoria cheias dos pressupostos delas, e a gente sabe bem qual é a minha cor, decidiram que eu, o "aluno novo", era o briguento, enquanto o indivÃduo armado tinha "8 anos de casa". Disseram que eu não era o "aluno ideal". Minha mãe ficou revoltada e foi cobrar satisfação da escola. Racismo estrutural escancarado.
Em 2015, eu dei um basta. Tive uma briga com familiares e decidi que não pisaria mais em psiquiatras ou neurologistas. Mudei de escola e finalmente fiz amigos de verdade, galera que compartilhou a sala comigo e que alguns tenho contato até hoje. 2015 e 2016 foram anos surreais financeiramente... com 13/14 anos, ganhando dinheiro de servidor de Minecraft e skins de CS, eu mandava coisas pra casa e minha mãe ficava sem entender nada. E eu não tinha saco pra explicar. Focava no Kumon (sou muito grato aos professores de lá, foram incrÃveis até o fim).
Em 2017, virei player profissional de Overwatch. Jogava campeonatos, recebia por isso (fazia até elojob) e, modéstia à parte, eu amassava em FPS. Mas a cabeça cobrou a conta. As questões existenciais voltaram rasgando, junto com uma despersonalização terrÃvel. Olhar pra própria mão e se sentir só um espectador sem amor próprio nenhum é bizarro. Voltei a procurar ajuda, totalmente escorado nos jogos pra tentar sobreviver aos meus próprios pensamentos; era o meu refúgio.
Em 2018, decidi estudar no centro de São Paulo. Lá o ambiente era mais leve. Podia andar pelos corredores de boa, conheci minhas melhores amigas e comecei a me amar um pouco mais. Foi aà que algo importante virou na cabeça: é a experiência que reflete no pensar, e não o contrário.
O ano de 2019 foi divertido. Mas veio 2020 e a depressão voltou gigante. Foi nesse caos que tive o primeiro contato com a medicina ancestral, e o cérebro destravou. Senti o panteÃsmo bater. Lembro de olhar pra uma formiga e me questionar algo que era óbvio: por que eu finalizaria com essa vida? O que me faz diferente, a não ser a estúpida arrogância de achar que porque eu penso eu sou superior? Só porque eu conseguia pisar nela? O livre-arbÃtrio não é passe livre. Ela merece existir tanto quanto eu, e não seria eu a cortar o curso natural dela. Eu estava finalmente vivo e grato por isso.
Reabrimos o Moment na pandemia, estudei pra Medicina, mas 2021 me engoliu. Fechei o servidor de novo e me afastei de absolutamente todo mundo. Contato de 0 pessoas. O estado depressivo era tão profundo que meu único oxigênio era a música. O ódio por mim mesmo bateu num limite onde joguei álcool no meu quarto inteiro, no sofá, na cama, no meu PC destruÃdo. Eu estava com o isqueiro na mão. Ia dar um fim em tudo. E foi naquele milissegundo exato que uma amiga me mandou uma mensagem me chamando pra ir à praia, e fez aquilo não acontecer.
Em 2022, fui pra Portugal morar com a minha mãe. Eu tentava viver, mas a angústia rasgava o peito, estava desgostoso com tudo. Até que, no dia 26 de junho de 2022, tomei todos os meus remédios de uma vez só.
Apaguei. Lavagem estomacal. Ala psiquiátrica. Lembro de acordar na cama do hospital, amarrado, gritando e xingando as médicas de todos os nomes possÃveis, revoltado porque elas tinham me ajudado. Levei uma injeção no braço e apaguei de novo.
Quando acordei da anestesia geral, não sei quanto tempo depois, a clareza veio. Fui extremamente transparente com as médicas, eu tinha entendido o que eu tinha feito. Mas se não rolou do jeito que eu queria, se eu fui mantido aqui, eu ia aceitar e entender o porquê. Eu queria continuar.
A partir daÃ, foi puro movimento. Fui pra SCZ no fim do ano, fiquei até a metade de 2023. Abandonei o curso de Medicina porque a mente pedia socorro, fui pro Brasil e logo depois mudei de vez pra Portugal. Fui morar sozinho na Figueira da Foz, adotei a Lizzy, voltei pras aulas de piano, estudei alemão, fechei o Moment definitivamente em 2023. Em 2024, morando em Coimbra com a famÃlia, abusei de uns remédios de novo, fiquei instável emocionalmente. Fui fazer uma viagem grande pela Europa pra tentar espairecer.
Na volta, usei a medicina ancestral e fui contemplado pelo universo com o entendimento... Fui ensinado como uma mãe ensina um filho. O universo me agarrou e me disse que ele tava comigo e que não ia me soltar nunca.
Pensar sobre o fim é, paradoxalmente, a coisa mais humana e lúcida que a gente pode fazer. Nós fomos condenados a ser livres, e essa liberdade dá uma vertigem desgraçada. Não tem um manual, não tem script, não tem uma voz divina ditando o próximo passo. A gente simplesmente é jogado nesse absurdo e tem que se virar pra construir algum sentido do zero.
Quando bate o vazio existencial, a mente tenta procurar a porta de saÃda. Mas antecipar o final é um desperdÃcio colossal da nossa própria rebeldia. A morte é a única burocracia que o universo resolve sozinho, sem a gente precisar fazer absolutamente nada. Ela vai chegar, é o gran finale garantido. É a vida que depende da morte, não o inverso. Então, se o último ato já tá escrito e sacramentado, por que não se permitir experienciar algo sem precedentes que é viver? 😀
A verdadeira graça tá na ousadia do improviso. A vida é ter a liberdade de entrar numa sala, tentar um caminho complexo por meses ou semanas, perceber que aquilo não faz sentido pra sua alma e simplesmente ter a coragem de virar as costas, abandonar o barco e mudar a rota. Não existe a obrigação de acertar de primeira. Você só deve orgulho a si próprio.
É sobre o processo contÃnuo de entender a própria cabeça, de investigar as próprias sombras e engrenagens de um jeito cru. É a paciência absurda de deixar uma ideia nova, ou uma mistura de ingredientes que ninguém testou antes, marinando a noite inteira, só pra descobrir de forma empÃrica que gosto aquilo vai ter no dia seguinte. É sentar no banco, olhar pras teclas do piano e errar o tempo da música dezenas de vezes até a melodia fluir com a vibe exata que você estava sentindo.
Estamos aqui pra sentir o peso e a textura das coisas. Pra olhar em volta, bater de frente com o que achamos profundamente injusto e transformar essa revolta em algo que possa ser escutado num palco qualquer, fazendo a palavra ecoar na cabeça de quem tá prestando atenção. A existência é uma experiência imersiva e caótica demais pra a gente dar leave no meio da partida.
O vazio não prova que nada importa, ele é o espaço em branco onde a gente constrói o que decide que importa. Já que o fim é o único destino certo dessa viagem maluca, nossa melhor vingança contra a indiferença do universo é esculhambar o previsÃvel. É testar possibilidades, criar camadas, sentir tudo no volume máximo e sugar até a última gota dessa experiência absurda que é ter uma consciência.
E a cultura é essencial pra isso. A cultura é a refeição indispensável na mesa de todos. É a arte, é o que faz a gente ser humano e o que dá uma visão real da vida. O que a gente veio fazer aqui é sentir. E a gente tem que se permitir sentir. A cultura providencia isso.
Afinal, o vazio é só o espaço em branco antes da gente dar o play. Eu decidi jogar até a última gota dessa experiência. Vem comigo?
"Nós vai de porta em porta procurando um "sentoido", só falta se olhar no espelho e ver o teu próprio sentido. É evidente. Uma casca de banana perfeita. A herança cósmica nunca teve tanto sentido."